Margem Viva

Uma pessoa está sentada diante de uma mesa de madeira, usando simultaneamente um notebook e um smartphone. O notebook está aberto com várias janelas e abas no navegador, enquanto a pessoa segura o celular com uma das mãos. A mesa tem aparência cotidiana e levemente desorganizada, com uma caneca de café, caderno com anotações manuscritas, caneta, fones de ouvido, cabos, papéis, pequenos objetos e vasos de plantas. Ao fundo há uma estante cheia de livros, mais plantas e uma pequena bandeira do Brasil na parede. O ambiente é doméstico e iluminado por luz natural vinda de uma janela à esquerda. A composição mistura elementos digitais e analógicos e transmite a sensação de uma rotina bastante conectada, com vários dispositivos, informações e objetos coexistindo no mesmo espaço.

Minha independência digital durou até eu precisar do WhatsApp

Publicado por Wagner Beethoven

Tempos atrás escrevi um texto sobre substituição de serviços essenciais. Na época, estava pensando em como sair um pouco do controle das big techs. De lá pra cá, acho que fiquei ainda mais refém delas, não que eu quisesse. Depois de assistir a um vídeo do RikerLinux, me deparei novamente com aquela vontade de ficar um pouco mais “fora” desse ecossistema. Fui reler o que tinha escrito e percebi que, na época, eu realmente achava que seria relativamente fácil.

Troca isso por aquilo. Instala uma alternativa aqui, migra os dados dali, pronto!

Meu maior medo era a falta de suporte para coisas realmente importantes, principalmente bancos e serviços do governo. Porque uma coisa é decidir onde vou escrever minhas notas, outra é descobrir que alguma coisa da minha vida depende de um aplicativo que só funciona direito dentro de determinado ecossistema. A independência digital fica bem menos romântica quando envolve pagar boleto.

Pelo menos parei de ter “um buscador”

Sair exclusivamente da pesquisa do Google foi uma das coisas que funcionaram. O Bing, por exemplo, às vezes traz resultados completamente diferentes. Hoje minhas buscas acabam acontecendo em três frentes: Google, Bing e Deep Research do GPT. No fim, acho que cheguei a um lugar melhor do que simplesmente substituir o Google por outro buscador.

Eu não tenho mais um buscador. Dependendo do que estou procurando, uso os três e comparo o que aparece. Continuo abrindo os resultados, lendo as fontes e verificando a informação… nada de Google Zero.

Como sempre fiz, como faziam os maias, incas e astecas: checavam fontes. (Eu sei, piada batida quando se fala de coisa “recente”, mas que já está “velha”.)

Aí chegamos ao Google

E aqui meu plano começa a desandar 🫠. De lá pra cá continua sendo muito difícil abandonar o Google Calendar.

Pela comodidade, deixei o Samsung Email de lado e continuo no Gmail. Google Contacts também continua ali. Isso foi uma das coisas que subestimei quando escrevi aquele primeiro texto: não basta existir uma alternativa, ela precisa funcionar. Precisa sincronizar direito, estar disponível nos dispositivos que uso, conversar com outras ferramentas e, principalmente, não transformar uma tarefa de cinco segundos numa pequena atividade administrativa.

Existe um preço para a independência digital e uma parte dele é paga em tempo.

Algumas coisas deram certo

Parei de usar o Notion tem um tempão. Até tenho conta de estudante, mas não vejo mais muita utilidade em centralizar tudo lá. Obsidian segue reizinho.

O Feedly continua absoluto, como sempre foi.

Meus favoritos estão espalhados pelos meus sites. Na verdade, dei uma boa limpada no meu site e deixei por lá só páginas essenciais. Ficaram os links e o blogroll aqui, mas sejamos sinceros: está tudo na barra de favoritos do navegador.

Organização também tem limites.

WhatsApp é praticamente infraestrutura

WhatsApp e Telegram continuam comigo e aqui aparece outro problema que vai além da qualidade da ferramenta: eu posso decidir abandonar um serviço, mas não posso decidir onde as outras pessoas estarão.

Posso encontrar o aplicativo de mensagens mais ético, privado, descentralizado, open source e maravilhoso do planeta, mas se ninguém com quem preciso falar estiver lá, instalei um belo aplicativo para conversar comigo mesmo. WhatsApp, principalmente no Brasil, já ultrapassou há muito tempo a ideia de “rede social”. Família está lá. Trabalho está lá. Prestador de serviço está lá. Empresa está lá. Às vezes atendimento médico está lá.

Nesse ponto, sair deixa de ser uma decisão exclusivamente individual.

Redes sociais são um mar de sangue

Aqui tudo fica mais complicado para mim. Teve uma época em que tudo era Twitter. O Threads veio, usei pouco. Continuo tentando lembrar que o Bluesky existe, embora essa minha atual fase low profile 😶‍🌫️ também não ajude muito. Além disso, estou 100% num detox de Instagram.

Só que o TikTok me pega. O algoritmo daquela desgraça é muito bom em descobrir exatamente quais besteiras conseguem arrancar gaitadas altissimas de mim. Esse é outro ponto que eu não considerava tanto antes: essas plataformas não competem apenas pela utilidade, elas competem pelo hábito.

Agenda precisa ser útil. E-mail precisa funcionar. Um aplicativo de notas precisa guardar minhas coisas. Rede social precisa fazer eu querer voltar. É outra batalha.

Eu estava fazendo a pergunta errada?

Quando escrevi aquele primeiro texto, acho que estava pensando muito em substituição.

  • Google por alguma coisa.
  • Notion por alguma coisa.
  • WhatsApp por alguma coisa.
  • Instagram por alguma coisa.

Como se independência digital fosse montar uma tabela com duas colunas e ir substituindo serviços até chegar ao final dela. Hoje estou menos interessado em “sair das big techs” e mais interessado em depender menos delas.

No caso das buscas, isso significou diversificar. Nas minhas notas, significou usar uma ferramenta em que meus arquivos continuam sendo meus arquivos. Em outros lugares, pode significar simplesmente saber onde estão meus dados, conseguir exportá-los e evitar colocar absolutamente tudo nas mãos da mesma empresa.

E em alguns casos significa aceitar que a conveniência venceu, porque existe também o risco de transformar independência digital em um segundo emprego. Não quero passar meu sábado configurando quinze serviços diferentes, mantendo servidor, corrigindo sincronização e lendo documentação só para conseguir adicionar “comprar café” numa lista. Eu só queria comprar café.

Então eu não sei se estou disposto a comprar novamente essa batalha inteira. Posso continuar no Gmail, continuar usando Google Calendar e provavelmente vou continuar no WhatsApp. O TikTok certamente continuará tentando destruir minha capacidade de concentração com algum vídeo idiota de 23 segundos.

Só que a pergunta mudou.

Em vez de “Como eu saio das big techs?”, estou começando a pensar: “Quanto trabalho estou disposto a ter para possuir um pouco mais da minha vida digital?”

Ainda não sei a resposta. Quem sabe daqui a algum tempo eu volte aqui para descobrir se consegui piorar ainda mais.

Última atualização:

Todos os textos

Comentários

Tem algo a dizer sobre este texto? Deixe um comentário. Ele aparecerá depois da moderação.

Deixar comentário