O que sobra de mim se a internet acabar?
Estava lendo as postagens do BEDA quando me deparei com uma publicação da Jeniffer sobre agenda e registro. Imediatamente lembrei de um vídeo da Lorelay Fox com dicas para escrever um diário.
E, por algum motivo, isso me bateu como um pequeno pânico. Olhei para as coisas que tenho e percebi que, tirando meus gibis e alguns punhados de livros, eu praticamente não tenho nada físico da minha vida.
Não tenho discos. Não tenho brinquedos guardados. Não tenho caixas cheias de ingressos. Não tenho recordações de viagens organizadas em álbuns. Não tenho aquela gaveta que você abre vinte anos depois e encontra um pedaço aleatório de 2007.
Meus ingressos estão no Ingresso.com, as fotos no Google Photos, os textos estão na internet e meus documentos são PDFs, além de boa parte dos meus livros serem digitais também.
Shows também não ajudam muito nessa arqueologia pessoal. Assisto a quase tudo pela televisão porque, sim, eu não tenho mais animação para passar horas em pé vendo show.
Antes eu tinha até aquela coisa de “preciso ver meu ídolo ao vivo”. Hoje, além de a lista ter diminuído bastante, boa parte dos meus ídolos está morta. Te amo, Bowie 🧑🏻🎤. Gostaria MUITO de visto o Kraftwerk ou de Radiohead, Marilyn Manson, Yeah Yeah Yeahs. Só existe um pequeno problema geográfico: se algumas dessas turnês já passam longe do Brasil, imagine do Nordeste.
Bethânia também estava na lista, só que, quando um ingresso começa a custar uma fração considerável de um salário mínimo, minha consciência entra na fila antes de mim.
Cinema é uma exceção, vou bastante! Tem a meia-entrada, tem promoção do Santander/Esfera, tem combo médio por R$ 20. É uma das poucas experiências culturais que ainda consigo transformar numa rotina presencial sem precisar fazer um planejamento financeiro digno de uma pequena obra pública, mas aí volto para o que realmente me incomodou.
Não é exatamente a falta de coisas - é a falta de vestígios. Eu nunca me considerei uma pessoa apegada a objetos e, de certa forma, gosto dessa vida com menos acúmulo. Só que nunca tinha pensado no outro lado disso: quase toda a minha memória material depende de uma tela para existir.
Se eu quiser lembrar de um filme que vi, procuro no histórico aqui ou no Letterboxd. Se quiser encontrar uma foto, Google Photos, rever alguma coisa que escrevi, entro no Medium, aqui ou no meu blog. Se quiser saber quando fui a determinado lugar, “talvez exista” um e-mail, um ingresso digital, uma foto com metadados ou algum registro perdido em uma conta.
Minha vida tem documentação. Bastante, provavelmente, só que ela quase não tem objetos e foi aí que o minimalismo digital, que sempre me pareceu tão confortável, começou a parecer um pouco estranho.
Se a internet acabasse amanhã, o que sobraria?
Eu sei, eu sei. A internet inteira desaparecer é um cenário meio “começo de filme ruim de ficção científica”, mas nem precisa acontecer algo tão dramático. Um serviço fecha, uma conta é perdida, um HD morre, uma empresa decide encerrar um produto, um formato deixa de ser suportado, um domínio expira, já até falei disso aqui, é um assunto recorrente que trago, os princípios da indieweb.
A gente fala muito sobre como o digital resolveu o problema do acúmulo físico, mas talvez tenha criado outro: terceirizamos parte da nossa memória e olha que eu nem tenho tanta coisa assim. Se juntar documentos, livros, fotos e arquivos diversos, acho que minha vida digital inteira não chega a 1 TB.
Um terabyte.
Décadas de vida cabendo num dispositivo menor que alguns dos livros que tenho na estante.
Tem alguma coisa fascinante nisso e alguma coisa assustadora também.
Talvez o que tenha me pegado na agenda da Jeniffer e no diário da Lorelay seja justamente isso. Elas não estavam falando simplesmente de guardar coisas. Estavam falando, cada uma à sua maneira, de produzir evidências da própria passagem pelo tempo.
Uma agenda preenchida deixa marcas, um diário deixa marcas, um ingresso amassado dentro de um livro deixa marcas. Até aquela tranqueira que você não sabe por que guardou durante quinze anos pode, de repente, recuperar uma tarde inteira que você já tinha esquecido.
Eu tenho memória.
Tenho arquivos.
Tenho backups.
O que comecei a me perguntar é se também quero ter alguns vestígios. Não pretendo virar acumulador e começar amanhã uma caixa chamada “MEMÓRIAS 2026”. Provavelmente eu esqueceria da caixa em março, mas talvez eu queira encontrar uma forma de registrar algumas coisas fora da lógica de simplesmente armazenar arquivos.
Alguma coisa que envelheça comigo.
Porque um PDF de 2008 continua exatamente igual.
Eu é que não.
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