Talvez não esteja tão perdido assim
Tenho duvidado das minhas escolhas profissionais há algum tempo.
Na adolescência, meu sonho era ser professor de ciências. Não deu certo. Minha carreira seguiu por outros caminhos, nada lineares, com altos, muitos baixos e bastante aprendizado no meio disso tudo. De algum jeito, cheguei onde estou.
Tenho vivido um estado de alerta que às vezes me faz questionar decisões que pareciam muito mais sólidas alguns anos atrás. Será que escolhi a profissão certa? Será que ainda quero fazer isso? Será que deveria estar procurando outra coisa?
Parte dessa angústia também vem de um mercado que não está fácil. Existe uma questão geográfica sobre a qual acho que falamos pouco: o eixo Sul-Sudeste ainda concentra boa parte das oportunidades em tecnologia e, para quem vive no Nordeste ou no Norte, isso pesa. Mesmo com o trabalho remoto, a distância ainda pode significar estar longe de determinadas empresas, redes e oportunidades.
No meu caso, tudo isso ajuda a explicar esse período meio sabático, meio involuntário, meio de reorganização. E tempo livre com uma cabeça inquieta dá nisso: comecei a imaginar outras vidas possíveis.
Mail club (nada de Karen Bachini feelings); artesanato, cerâmica fria e colagem; costura, bolsas, crochê e upcycle; joalheria; projetos editoriais (ainda acho que vou lançar); educação; tecnologia (continuar nessa jornada solitária).
Quem sabe fazer algumas dessas coisas ao mesmo tempo. Foi aí que pensei: por que não fazer um teste vocacional? Só que fiz com o ChatGPT. 🤐
Começando do zero
Pedi que ele ignorasse tudo o que já sabia sobre mim. Queria evitar a conclusão mais previsível do mundo: descobrir, depois de anos trabalhando com design e tecnologia, que minha vocação era trabalhar com design e tecnologia.
As perguntas passaram por infância, interesses, trabalho, dinheiro, autonomia, conhecimento, pessoas, sistemas e futuro. Algumas respostas foram familiares: quando criança lia gibi e desenhava; hoje posso passar horas pesquisando reforma de casa, artesanato, natureza, sistemas e tecnologia. Quando precisei dizer o que acho que faço bem, respondi ensinar, planejar e projetar coisas maiores.
Mas três respostas ficaram comigo:
- Se dinheiro deixasse de ser um problema, escolheria trabalhar com acessibilidade, tecnologia e educação.
- Se pudesse me tornar excepcional em apenas uma capacidade, escolheria compreender sistemas extremamente complexos.
- Aos 60 anos, qual história profissional me deixaria mais satisfeito? “Produzi conhecimento que continuou sendo utilizado depois de mim.”
Acho que foi aí que o teste deixou de ser uma brincadeira.
E se a pergunta estivesse errada?
O resultado apontava para alguém interessado em investigar, compreender, organizar, projetar e transmitir. Mais do que indicar uma profissão, aquelas respostas descreviam uma maneira de pensar.
Então fiz o caminho contrário. Devolvi ao ChatGPT minha trajetória profissional e perguntei o que acontecia quando as duas coisas eram colocadas juntas.
Foi quando apareceu uma frase que me pegou: Product Designer descreve o meu trabalho, mas não completamente a maneira como penso.
Comecei a olhar para os projetos que fiz e percebi um padrão. Entro por um problema e, quando vejo, estou tentando entender pessoas, regras, processos, informação, tecnologia, operação e como todas essas coisas se relacionam.
Até uma característica que sempre tratei quase como ferramenta ganhou outro peso: documentação.
Documento para conseguir pensar.
Escrever, organizar informação, criar estruturas, registrar decisões e transformar coisas complicadas em modelos compreensíveis fazem parte da maneira como entendo um problema.
A acessibilidade também apareceu sob outra perspectiva. Comecei a pensar que ela não precisa ser exatamente uma profissão. Pode ser o campo no qual quero aplicar pesquisa, design, tecnologia, educação e esse interesse quase obsessivo por entender como sistemas funcionam e como poderiam funcionar melhor. Coisas que pareciam espalhadas começaram a parecer um pouco menos aleatórias.
E o professor de ciências?
No fim, voltei para aquele adolescente que queria ser professor.
Hoje fico pensando se estava mesmo interessado no título de “professor de ciências”. O que havia ali era curiosidade, vontade de entender, prazer em explicar e fascínio por descobrir como as coisas funcionam.
Isso continua aqui.
Não virei professor de ciências, mas ensino, pesquiso, projeto, documento e comunico. Continuo querendo entender coisas e, quando consigo, tenho vontade de organizá-las e compartilhar o que aprendi.
Isso também não significa que vou desistir da ideia de aprender artesanato, costurar uma bolsa, mexer com joalheria ou criar um mail club. Algumas dessas coisas podem virar trabalho, outras podem continuar sendo hobbies e algumas provavelmente serão obsessões de seis meses que depois darão lugar a outra coisa.
Elas nem precisam justificar sua existência virando profissão.
O teste também não resolveu minha vida profissional. Um modelo de linguagem dificilmente deveria ter esse poder, mas ele mudou um pouco a pergunta.
Tenho passado muito tempo pensando “o que deveria fazer agora?”, quando começo a achar que existe uma pergunta anterior: “O que existe em comum nas coisas que continuo escolhendo fazer?”
Pode ser que eu não precise encontrar uma profissão completamente nova. Posso estar apenas tentando encontrar um nome para algo que já venho construindo há bastante tempo.
Ainda não encontrei.
Mas, curiosamente, descobrir é justamente uma das coisas que mais gosto de fazer.
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