Por trás do blog
Este texto nasceu após a leitura do Mormaço, blog que faz parte do EntreBlogs, coletivo do qual também faço parte. Ele integra o tema #PorTrasDoBlog.
Esse texto tá cheio de link 😎
Se você chegou até aqui procurando um “sobre mim”, talvez tenha entrado na página errada.
Neste site (nem sempre nele) já existe uma página contando minha trajetória profissional, outra falando dos projetos que desenvolvo, uma sobre onde moro, outra sobre minha identidade e até uma lista de coisas das quais gosto. Todas elas ajudam a responder quem sou.
Esta página existe por outro motivo. Ela reúne pequenas histórias que ajudam a explicar por que todas aquelas outras páginas existem, não é um currículo nem uma biografia. É uma tentativa de entender como algumas escolhas aparentemente desconexas acabaram me trazendo até aqui.
Sempre achei curioso como a gente demora para entender a própria história. Durante muito tempo enxerguei minha vida como uma sequência de mudanças de direção. Hoje percebo que talvez só tenha mudado as ferramentas, a curiosidade sempre foi a mesma.
Aprendi a ler com quadrinhos
As primeiras revistas eram do Conan - O Bárbaro. Meu pai percebeu que aquilo talvez não fosse exatamente uma leitura apropriada para uma criança e fez uma substituição estratégica: saíram os bárbaros, entrou a Turma da Mônica. Não demorou muito para descobrir a Marvel. Passei anos colecionando gibis, acompanhando sagas, decorando nomes de personagens, roteiristas e desenhistas. Sem perceber, estava aprendendo a gostar de boas histórias e entendendo que um universo podia ser construído aos poucos, edição após edição.
Essa curiosidade também apareceu na escola
Tive uma professora de Biologia que mudou completamente a forma como enxergava uma sala de aula. Não era apenas o conteúdo, mas a maneira como ela conseguia despertar curiosidade antes mesmo de começar a explicar qualquer assunto. Durante anos achei que queria ser exatamente como ela. Entrei na universidade, fiz Licenciatura em Ciências com habilitação em Biologia e passei cerca de seis anos dando aula em escolas da prefeitura e do estado.
A escola pública me ensinou muito mais do que imaginava. Aprendi sobre desigualdade, criatividade, improviso e, principalmente, sobre pessoas. Também foi ela que me mostrou que aquele sonho não sobreviveria da forma como havia imaginado. Foi uma despedida difícil, porque não estava abandonando apenas uma profissão. Estava abrindo mão de um projeto de vida que me acompanhava desde a adolescência.
Hoje entendo que nunca deixei de querer ensinar. Apenas encontrei outras formas de fazer isso. Talvez seja por esse motivo que meus projetos tenham sempre algum vínculo com educação, mesmo quando falam de acessibilidade, design ou tecnologia.
Meu primeiro emprego veio ainda antes da universidade. Aos quinze anos, comecei a trabalhar como auxiliar de biblioteca enquanto fazia um curso de inglês. Passava os dias cercado de livros, revistas e gente procurando informação. Na época parecia apenas um trabalho de adolescente. Hoje gosto da coincidência de perceber que minha vida profissional começou dentro de uma biblioteca e continua, de certa forma, girando em torno do conhecimento.
Enquanto tudo isso acontecia, existia outra escola funcionando em paralelo.
A internet
Descobri a web no começo dos anos 2000, quando ela ainda parecia um conjunto de pequenos bairros. As pessoas tinham blogs, páginas pessoais, livros de visitas, fóruns e listas de links. Você encontrava alguém por acaso e, algumas semanas depois, já estava acompanhando a vida daquela pessoa como se morasse na mesma rua.
Passei incontáveis horas aprendendo HTML, quebrando layouts, tentando entender CSS e escrevendo textos que provavelmente só meia dúzia de pessoas leu. Nunca achei que estava aprendendo uma profissão, só estava me divertindo.
Também passei noites esperando downloads terminarem no Soulseek. Meu primeiro álbum baixado foi Fever to Tell, do Yeah Yeah Yeahs. A minha banda preferida, tudo após assitir Date With The Night. As nove primeiras faixas chegaram naquele mês, a última só apareceu semanas depois porque os pulsos do telefone acabaram antes do download terminar. Hoje parece estranho esperar tanto tempo por uma música, mas, naquela época, esperar também fazia parte da experiência (ruim).
Talvez seja por isso que sinta tanta “saudade” daquela internet. Ela era mais lenta, mais imperfeita e infinitamente menor, mas também parecia mais humana. Você conhecia as pessoas pelos textos que escreviam (Blogspot era um rei), pelas músicas que ouviam (horas vendo LastFM e procurando quem era super), pelos links que compartilhavam e pelos projetos que construíam. Antes mesmo das redes sociais, já existia uma sensação de “proximidade” difícil de explicar para quem não viveu aquele período.
Minha adolescência também era feita de pequenas comunidades, tinha muitos amigos, passava boa parte do tempo cercado de gente e fazia amizades com facilidade. A vida adulta foi afinando esse círculo até ele caber nos dedos de uma mão. Não vejo isso necessariamente como uma perda, apenas entendi que algumas pessoas permanecem por décadas, enquanto outras pertencem exatamente ao momento em que as conhecemos.
Foi nessa internet que comecei a construir sites.
Ajudei a fundar a Revista O Grito, quando ela ainda era pequeno projeto sobre cultura pop. Escrevia, diagramava e ajudava a desenvolver o site. Depois que sair d’O Grito, ao lado de Belisa, criamos a Revista Žena, projeto editorial dedicado à literatura e ao universo feminino, que passou por diferentes formatos, incluindo uma revista impressa e fanzine.
Olhando para trás, percebo que gostava menos da tecnologia em si do que da possibilidade de conectar pessoas por meio dela. Sem perceber, já organizava informação antes de saber o que era arquitetura da informação e já me preocupava com a experiência de quem navegava por um site antes de conhecer a expressão experiência do usuário. Já fazia design antes mesmo de saber que aquilo tinha nome.
Quando migrei de carreira, a sensação não foi a de começar outra vida. Foi a de finalmente encontrar o nome daquilo que já fazia havia anos. Talvez seja por isso que meus projetos pareçam tão diferentes entre si. Acessibilidade, cultura, educação, tecnologia e meio ambiente podem parecer assuntos distantes, mas, para mim, todos falam da mesma coisa: tornar informação, conhecimento e oportunidades um pouco mais acessíveis.
O Foco Acessível, a A11YBR, o Ecoleta e este blog nasceram exatamente desse lugar.
Também existem pequenas constantes que atravessam toda essa história, ainda releio Trilogia Suja de Havana, do Pedro Juan Gutiérrez, como quem reencontra um velho conhecido. Ainda volto para os animes da Manchete, especialmente Cavaleiros do Zodíaco, Shurato e Yu Yu Hakusho. Já assisti a todos mais de uma vez e provavelmente vou assistir de novo, sempre com a sensação de quem está vendo pela primeira vez.
Continuo gostando de filmes de terror, embora qualquer história com extraterrestres ou tubarões ainda consiga me deixar desconfortável, talvez por causa dessa memória construída pelo entretenimento, levo sustos nas situações mais simples e me envolvo demais com o que estou assistindo. Se for um drama, provavelmente vou chorar e, dependendo da situação, precisarei pausar o filme para me recompor, a primeira vez em que me lembro de ter sentido isso foi assistindo a Filadélfia, com Tom Hanks.
Continuo jogando videogame.
Na infância, tinha um Super Nintendo e carregava a convicção de que era muito bom em qualquer jogo. Hoje essa confiança ficou no passado. Os reflexos diminuíram, a habilidade já não é a mesma e, quase sempre, a culpa pela derrota é minha, não do controle.
Mesmo assim, continuo jogando, e hoje meu interesse por consoles está concentrado em Diablo. Desde o terceiro jogo, meu personagem quase sempre é um feiticeiro, e tento seguir meta-builds sempre que possível (Maxroll, te 💗). Agora estou completamente envolvido com Diablo IV, tentando construir um mago cada vez mais poderoso e aceitando, com alguma humildade, que a build pode estar perfeita e, ainda assim, continuar morrendo porque apertei o botão errado.
Talvez seja justamente isso que me faça voltar. Não é mais para provar que ainda sou bom, alguns hobbies deixam de ser desafios e passam a ser lugares onde a gente gosta de estar.
Ainda compro quadrinhos, hoje em uma frequência bem menor. Acompanho apenas a edição bimestral do Hulk e a coleção histórica de Spawn publicada pela Panini.
Também continuo preferindo um café coado com calma, mesmo sentindo certa raiva durante o processo, há alguma coisa no tempo da moagem, da água e da espera que faz o gole parecer melhor.
A idade também me mostrou que reaprender pode ser muito mais difícil do que aprender pela primeira vez. Durante a pandemia perdi parte da pessoa que era e ainda passo boa parte do tempo tentando juntar esses pedaços, por isso tenha decidido aprender crochê. Parece simples quando outra pessoa faz, mas basta segurar a agulha para perceber o tamanho do desafio. Vou de tutorial em tutorial, desmancho mais pontos do que consigo terminar e continuo tentando.

Já comecei a olhar também para aqueles kits de desenho, talvez porque confie mais na minha habilidade com o lápis do que com os dedos e as agulhas, não vejo isso como desistência, é apenas mais uma tentativa de aprender alguma coisa nova, mesmo quando ela parece difícil demais no começo.
Reconstruir a gente também passe por isso: escolher uma atividade, errar bastante e continuar insistindo até reconhecer alguma coisa de nós mesmos no resultado.
Ainda acredito que um bom texto pode mudar a forma como alguém enxerga um assunto, é exatamente por isso que este blog existe. Escrever sempre foi uma forma de organizar o que penso, mas ler continua sendo a melhor maneira que encontrei de mudar de ideia. Se este espaço também servir para levar alguém aos textos, livros, filmes e projetos que me influenciaram, já terá cumprido parte do seu propósito.
O Margem Viva não nasceu para funcionar como mais um braço profissional, embora o trabalho apareça por aqui porque ele também faz parte de quem sou. Sempre volto a essa tentativa de separar o profissional do pessoal, talvez para deixar registrado para mim mesmo qual é o propósito deste espaço, o blog é uma vitrine das minhas ideias, das minhas opiniões do momento e das coisas que ainda estou tentando entender.
Ele nasceu, principalmente, porque sinto falta de uma internet em que as pessoas escreviam para registrar o mundo, e não para disputar atenção como acontece nas redes sociais. Quero que este seja um lugar para falar sobre design, acessibilidade, livros, filmes, quadrinhos, tecnologia, café, projetos, memórias, dúvidas e qualquer outra coisa que desperte minha curiosidade, independentemente da audiência.
Não tenho calendário editorial nem obrigação de performar como escritor, cronista, jornalista ou qualquer outro profissional das letras e nem quero parecer especialista em tudo. Quero apenas ser alguém tentando entender melhor o mundo enquanto escreve sobre ele.
Passei boa parte da vida construindo pequenos lugares para as pessoas encontrarem histórias, informação ou outras pessoas, alguns duraram pouco, outros continuam vivos até hoje. Este blog é só mais um deles, se voltar a estes textos daqui a alguns anos, espero encontrar menos uma coleção de publicações e mais um retrato honesto de quem estava me tornando. Porque, no fim das contas, talvez seja isso que um blog sempre tenha sido.
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