Cadeira de madeira branca e desgastada em um cômodo vazio, com paredes de tábuas escuras. A luz entra por uma janela no alto à direita e ilumina parte da cadeira e do piso. A fotografia tem tons sépia e aparência envelhecida.

A culpa tem boa memória

Essa semana assisti a Verity, um filme sobre uma ghostwriter contratada para assumir os livros de uma escritora de best-sellers de terror, daqueles que a gente encontra em qualquer aeroporto.

O que achei mais interessante foi como o filme brinca com a verdade. A gente passa boa parte do tempo tentando adivinhar o que vai acontecer, quem está mentindo, quem está falando a verdade, quem está escondendo alguma coisa. Eu mesmo fico nessa mania de tentar descobrir o final antes de chegar nele. E aí o filme vai colocando algumas certezas em dúvida.

A verdade é um negócio complicado, né?

Na adolescência, já levei culpa por coisas que nem sabia que tinham acontecido. E quando finalmente soube, descobri que nem tinha sido eu, mas adiantou de quê? A culpa continuou comigo. A pessoa que tinha sofrido escolheu acreditar na versão que fazia sentido para ela e pronto. Eu fiquei com uma culpa que nem era minha.

Vida que segue. Ou quase.

Quando comecei a terapia, acho que uma das primeiras coisas que falei ao terapeuta, a segunda ou terceira frase, foi:

Tudo o que eu contar daqui pra frente é a versão que existe na minha cabeça hoje. Não quer dizer que foi exatamente assim que aconteceu, nem que eu sentia naquela época o que sinto agora.

Eu lembro de ter falado isso porque sempre achei meio estranho contar histórias sobre mim mesmo com tanta certeza. Principalmente as antigas. Tem coisa que eu lembro perfeitamente, ou pelo menos acho que lembro. Outras eu já contei tantas vezes que nem sei mais se lembro do acontecimento ou da história que costumo contar sobre ele.

E tenho um certo medo de quem lembra de tudo com uma precisão absurda. Gente que sabe o dia, o mês, o ano, se era de manhã ou de tarde, a roupa que estava usando. Como é que pode? Eu mal lembro o que fiz terça-feira passada.

Seja porque vivo meio sem roteiro. Já tenho tanta trava na vida que ainda ter que organizar minhas lembranças por data seria demais, mas às vezes fico pensando:

  • quantas coisas eu tenho certeza de que aconteceram de um jeito e talvez tenham acontecido de outro?
  • quantas vezes alguém saiu como vilão de uma história minha sem nem saber? E
  • quantas vezes fui eu o vilão na história de alguém?

Essa última eu sei que aconteceu e é uma sensação horrível.

O pior é que nem sempre adianta explicar. Tem gente que já decidiu o que aconteceu, o que você fez, o que você quis dizer. E você pode falar, mostrar, tentar reconstruir tudo, mas a pessoa continua com a versão dela.

E aí você fica com aquilo. Às vezes por anos.

Tenho pensado bastante nisso nesses dias de eleição.
Estou vendo tanta gente falando com uma certeza que me assusta. Gente que conheço, de quem gosto, defendendo coisas que eu simplesmente não consigo entender. E o mais estranho é perceber que, na cabeça dessas pessoas, tudo faz sentido. Existe uma explicação, uma justificativa, uma verdade que organiza tudo.

Eu sei que também tenho as minhas. Seria muita pretensão achar que estou imune a isso, mas tem uma coisa que me incomoda nessa história de cada um ter sua verdade. Até onde vai essa liberdade de escolher no que acreditar? Porque quando essa escolha começa a atingir a vida dos outros, a conversa muda.

Uma lembrança errada pode acabar com uma amizade, com uma relação, com a maneira como alguém é visto. Agora imagina quando essa mesma disposição de acreditar no que convém passa a orientar escolhas que afetam tanta gente.

E provavelmente seja isso que mais me dê medo, tem gente que escolhe uma verdade, dorme tranquila e segue a vida. Enquanto isso, outras pessoas precisam acordar todos os dias e lidar com as consequências daquela escolha.

Vida que segue pra quem consegue, né?

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