Bandeira do Brasil com as cores do arco-íris no lugar da área verde astiada numa janela. Ao fundo, uma cidade.

Eu não quero ter que agradecer por existir

Tenho medo do que pode acontecer com o Brasil nos próximos anos. E, sendo um homem LGBT, esse medo vai muito além de uma eleição.

Medo por mim, pelos meus amigos, pelas pessoas que amo. Medo de que discursos de ódio ganhem ainda mais força e de que algumas pessoas se sintam autorizadas a nos violentar, humilhar ou simplesmente decidir que temos menos direito de existir.

Foi pensando nisso que resolvi pesquisar o que os governos brasileiros fizeram pelos nossos direitos, especialmente o PT. E sim, houve avanços importantes. O Brasil sem Homofobia, a Política Nacional de Saúde Integral LGBT e o reconhecimento do nome social são alguns exemplos.

Também houve recuos, como a suspensão do material Escola sem Homofobia durante o governo Dilma e muitas das nossas maiores conquistas, como o casamento civil igualitário, vieram de decisões do Judiciário, depois de anos de luta dos movimentos sociais.

Reconheço os avanços do PT e também cobro seus erros, não vejo contradição nisso.

O que me assusta no bolsonarismo é que seu histórico vai muito além de promessas eleitorais. O maldito do pai, já defendeu agressões físicas para mudar o comportamento de um filho gay, em 2010, e chegou a declarar que preferia um filho morto a um filho homossexual. Anos depois, ajudou a transformar o combate à homofobia nas escolas numa campanha de desinformação sobre o chamado “kit gay”, que chegou a ser alvo de determinação de remoção pelo TSE.

Suas crias também participaram desse ambiente político. Carluxo ironizou pessoas gays publicamente, enquanto o traidor fez uma comparação depreciativa envolvendo famílias homoafetivas. Flávio tem um histórico próprio, inclusive com voto favorável a uma proposta de proteção de pessoas LGBT+ encarceradas, embora acompanhado de ressalvas sobre identidade de gênero. Isso também precisa ser reconhecido.

Como esquecer o restante? Como ouvir um pai dizer que prefere um filho morto a um filho gay e acreditar que esse discurso não produz consequências? Como não pensar nos adolescentes que escutam isso dentro de casa, nas pessoas expulsas de suas famílias, em quem aprende desde cedo a esconder o que sente?

Azulejo de parede escrito: amem travestys, boycetas e nb's dê mais amor do que vc recebe

Eu não consigo tratar essas coisas como simples divergências políticas.

Quando comparo os programas apresentados por Lula e Flávio para o próximo mandato, encontro compromissos explícitos com nossos direitos no primeiro e não encontro propostas específicas para a população LGBTQIA+ no segundo documento analisado. Sei que um programa eleitoral não garante a execução de políticas e que a ausência de uma proposta não permite prever todas as decisões de um governo, mas o histórico político importa. As palavras importam e as pessoas que podem sofrer as consequências importam ainda mais.

Penso nos meus amigos, nas pessoas trans, nos jovens que ainda têm medo de contar quem são e em quem enfrenta violência dentro da própria casa. Penso também em como a fé, que poderia ser um espaço de acolhimento, tantas vezes acaba sendo usada para justificar nossa rejeição.

Não quero ter que agradecer a um partido por reconhecer minha existência. Quero poder cobrar de qualquer governo o compromisso de proteger nossas vidas.

E é por isso que vou votar em Lula.

Não porque ache que o PT seja perfeito, nem porque tenha esquecido suas concessões, erros e oportunidades perdidas. Vou votar nele porque, olhando para a minha história e para o que está em disputa, ainda encontro em Lula uma possibilidade de esperança.

Sou LGBT, sou da classe trabalhadora e sou nordestino. Essas três coisas atravessam a maneira como enxergo o Brasil. Quando penso em Lula, penso também em alguém que veio do Nordeste, conheceu a pobreza, foi trabalhador e chegou à Presidência. Essa trajetória tem um significado enorme para mim, mesmo que eu não concorde com todas as suas escolhas.

Quero um país onde minha origem não seja motivo de desprezo, onde trabalhar permita viver com dignidade e onde amar alguém não seja motivo de medo.

Sei que Lula não vai resolver tudo. Vou continuar cobrando políticas públicas, orçamento, proteção e resultados. Nesta eleição, minha escolha também carrega a esperança de que o Brasil possa ser um lugar menos hostil para quem sempre precisou lutar para ser respeitado.

Wagner segurando um leque

Eu quero continuar vivo. Quero que os meus continuem vivos. Quero que a gente possa existir sem precisar negociar nossa dignidade a cada eleição.

E quero continuar acreditando que o país onde nasci também pode ser um lugar para nós.

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