Um animal sem dono
Recentemente, peguei um Uber indo para o oftalmo. O motorista estava ouvindo Arcade Fire. Elogiei o bom gosto, disse que adorava a banda e que tinha um motivo ainda maior para gostar dela.
Mas preciso voltar um pouco.
Minha relação com Painho nunca foi das melhores. Quando eu tinha uns 17 anos, ele me colocou contra a parede e perguntou se eu era gay. Eu me senti acuado, com medo e ele jogou muito ódio em cima de mim na forma de palavras. Retrato de um tempo? Retrato dele ser assim? Hoje, não importa muito.
Daquele momento até a desencarnação dele, existiu um muro entre nós. Um muro que eu mesmo ajudei a construir, com blocos maciços de afastamento, embora o respeito continuasse ali. E, estranhamente, a música atravessava esse muro.
Era a época em que começaram a bombar aqueles discos com centenas de MP3. Aprendi a “queimar” CDs no Nero, ripava outros no Windows Media Player e completava a coleção com o que encontrava no Soulseek. Painho gostava de música clássica e eu comecei a gravar discos para ele. Foram milhares. Acho que cheguei perto de 5 mil CDs, todos nomeados e organizados.
Mesmo com aquele muro de concreto entre a gente, eu ainda olhava para fora de vez em quando e permitia que aquele ritual existisse. Porque, apesar de tudo, eu amava Painho.
Ou amo. (Não sei muito bem qual tempo verbal usar para quem morreu.)
Eu amava muito aquilo que meu pai, meu “herói”, representava para mim. Talvez menos o homem concreto e mais aquela figura imagética de perseverança que construí ao longo da vida.
Eu também gravava meus próprios discos. Em um deles estava Funeral, do Arcade Fire. Painho ouviu e ficou encantado. Depois baixei um show da banda para ele. Tenho quase certeza de que era esse que ainda hoje consigo encontrar no YouTube. Arcade Fire acabou virando uma dessas coisas improváveis que existiam entre nós. Uma fresta naquele muro.
Foi mais ou menos isso que contei ao motorista, só que em muito menos palavras. Então ele começou a falar dele. Disse que não teve contato com o pai desde muito novo. Foi criado pela mãe, que tinha morrido em abril daquele ano.
Não sei exatamente em que momento aquela conversa deixou de ser sobre Arcade Fire.
Ele contou que tinha parado de tomar o remédio que a psiquiatra havia prescrito porque sentia que estava ficando sem emoções. Continuou falando da mãe, da relação dos dois, de como estava vivendo desde que ela morreu. Até que soltou:
“Eu sou um animal sem dono, solto no mundo agora.”
Aquilo me pegou de jeito.
Depois mudamos de assunto. Falamos amenidades e a viagem continuou como qualquer outra viagem de Uber. Mas a frase veio comigo. Porque hoje, quando penso em quem ainda me segura no mundo, em quem é aquela pessoa para quem eu ainda sinto que devo satisfação, penso em Mainha.
Tenho família. Cada um com seus maridos, esposas, filhos e suas próprias vidas. Sou casado e torço para que seja para sempre. Mas também sei que a vida não assina contrato garantindo que as coisas permanecerão como estão.
Mainha continua sendo esse ponto fixo. E em algum momento, espero que muito distante, ela também vai embora.
Eu vou ser órfão.
Não sei como vou lidar com isso. O luto de Painho dói menos hoje. O tempo mudou algumas coisas e eu também mudei. Às vezes penso nele com a cabeça que tenho agora. Como seria mostrar determinada banda para ele? O que ele acharia disso? Será que estaríamos falando mal do Bolsonaro juntos?
São perguntas meio inúteis, eu sei. Mas talvez parte do luto seja continuar imaginando conversas com alguém que já não pode responder.
A morte de Painho também consolidou algo em mim. Eu acredito em reencarnação. O espiritismo me ajudou a lidar com a morte dele e, depois, com a de Voinha, mãe dele. Com ela, inclusive, a dor foi diferente. Menor, talvez.
Não sei se alguma crença vai tornar simples o luto por Mainha. Espero que essa seja uma questão para um futuro muito distante. Ainda quero viver muitos momentos com ela antes de precisar descobrir a resposta.
Talvez tenha sido por isso que a frase daquele homem tenha vindo comigo depois que saí do carro.
“Eu sou um animal sem dono, solto no mundo agora.”
Não sei se um dia vou me sentir assim, espero demorar muito para descobrir.
Enfim.
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