A gente era tão amigo, lembra?
Terminei de assistir a Carrie com aquele sentimento de vingança bem feita. Para quem não conhece a história, Carrie é uma adolescente que sofre com a crueldade dos colegas, o bullying e a dificuldade de encontrar um lugar onde possa simplesmente ser feliz.
Ela só queria estudar, fazer amigos e construir aquelas lembranças que a gente deveria guardar com carinho da adolescência, mas nem todo mundo tem essa sorte. Como sempre, trouxe a história dela para minha vida.
Será que estou sendo muito egocêntrico?
Na adolescência, sempre tive uma proximidade com os “esquisitos”. Andava com a turma dos nerds, dos estudiosos, daqueles que nem sempre eram os mais populares. Alguns deles atravessaram os muros da escola e se tornaram amigos de verdade.
Lembro de uma época em que caí numa turma praticamente 100% evangélica. Eu e outro colega éramos os únicos que não fazíamos parte daquele universo. E olha que nem era uma escola religiosa! Foi só o azar de cair na turma errada.
O papo era religião o tempo inteiro. Conseguiram até convencer a direção a criar um intervalo bíblico diário. Aquilo foi o estopim. Mudei de turno e consegui aproveitar os últimos quatro meses do ano com alguma normalidade.
Mas, tirando esse episódio, eu tive uma adolescência relativamente tranquila. Conseguia circular entre os diferentes grupos da escola e, depois, da faculdade. Tinha amizade com todo mundo, uns mais próximos, outros nem tanto.
O curioso é que, mesmo cercado de gente, havia uma parte enorme da minha vida que ninguém conhecia.
Eu ainda estava no armário. Enquanto os colegas chegavam na segunda-feira contando sobre os namoros, as festas e os acontecimentos do fim de semana, eu quase nunca tinha novidades para compartilhar. Pelo menos não com eles. Minha vida fora da escola acontecia principalmente com aqueles amigos outsiders, com quem eu conseguia ser um pouco mais eu. E, apesar disso tudo, quando penso na adolescência, lembro de uma fase feliz. Tenho boas histórias, pessoas queridas e lembranças que guardo com carinho.
Talvez seja justamente por isso que olhar para essas amizades hoje me provoque tanta tristeza.
Eu realmente acreditava que chegaria à vida adulta acompanhado de muitas das pessoas que conheci pelo caminho. Os amigos da escola, da faculdade, dos trabalhos por onde passei. Cada fase trouxe gente nova, histórias, conversas e aquela sensação de que algumas amizades durariam para sempre.
Mas a vida foi acontecendo. Da escola, ficou um ou outro. Da faculdade, também. Dos trabalhos, a mesma coisa. Algumas pessoas simplesmente desapareceram da minha rotina. Outras continuam por perto, mas já não temos aquela convivência de antes.
E, quando olho para tudo isso, percebo que meu círculo de amizades ficou muito menor do que imaginava. Hoje consigo contar nos dedos quantos amigos tenho e isso me entristece mais do que gostaria de admitir.
Assunto para terapia? Sim, claro!
Não posso dizer que fui uma pessoa solitária
Pelo contrário, conheci muita gente, circulei por diferentes grupos e construí relações que foram importantes para mim. Talvez seja justamente por isso que essa percepção me entristeça tanto.
Às vezes me pergunto se deixei de cultivar determinadas amizades, se as pessoas também se afastaram ou se simplesmente fomos seguindo caminhos diferentes. A vida adulta chega, as responsabilidades aumentam, os encontros ficam mais difíceis e aquele “vamos marcar alguma coisa” vai se transformando em anos sem notícias e o mais curioso é que nem sempre existe uma briga, uma decepção ou um motivo específico. Às vezes, a gente só deixa de fazer parte da vida um do outro.
Será que isso acontece com todo mundo? A gente passa a vida conhecendo pessoas para, no fim, manter contato com tão poucas? Será que vamos ficando mais seletivos ou simplesmente perdemos a capacidade de manter tantos vínculos?
E aí me pego pensando numa coisa ainda mais triste: quando envelhecemos, quem fica? Os amigos? A família? Quem a gente encontra pelo caminho?
Voltei a pensar em Carrie. Ela queria tanto pertencer a algum lugar.
Eu, que passei boa parte da adolescência circulando entre tantos grupos, cheguei à vida adulta me perguntando para onde foram aquelas pessoas.
Talvez eu sinta falta de algumas delas. Talvez sinta falta daquela época em que sempre havia alguém por perto, alguma história para contar, algum encontro acontecendo ou talvez seja um pouco das duas coisas.
Não tenho uma resposta. E, sinceramente, nem sei se preciso encontrar uma agora, mas, pelo menos, ainda tenho gente boa com quem contar e espero que essas pessoas saibam o quanto são importantes para mim.
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