Interior de um ônibus antigo, com passageiros sentados e em pé, barras metálicas de apoio e iluminação alaranjada entrando pelas janelas.
Interior de um ônibus. Foto: Unsplash.

Minha vida de pirata começou com uma mesa de computador

Meu primeiro computador chegou no começo dos anos 2000, quando minha irmã tinha acabado de entrar em Computação na Unicap. Meu pai comprou a máquina, mas inventou uma regra: só poderíamos ligar o computador quando tivéssemos uma mesa adequada. E quem disse que eu ia esperar?

Peguei meu Vem Estudante e fui para a Rua do Aragão, no Centro do Recife, famosa pelas lojas de móveis. Comprei uma daquelas mesas tradicionais, cinza, com tampo de MDF e pés de metal, e voltei com o trambolho todo desmontado de ônibus. Eu conseguia sentir o ódio dos passageiros enquanto ocupava um espaço absurdo com aquele monte de madeira e ferro, mas fazer o quê? Eu precisava ligar meu computador! Cheguei em casa, montei a bendita mesa e pronto.
Começava ali uma relação com a tecnologia que, mais de vinte anos depois, continua me dando trabalho.

Aprendi a mexer em praticamente tudo na base da curiosidade, das revistas de informática e daqueles CDs que vinham nas publicações. Não lembro muito bem a ordem das coisas, mas passei pelo Blogger, tive uma revista de cultura com um amigo e depois fomos para o WordPress. Eu estava sempre inventando alguma coisa com design e código, quebrando páginas e tentando descobrir como consertar. E, claro, a pirataria estava presente desde o começo.

Captura de tela do Macromedia Dreamweaver MX 2004 no Windows XP, exibindo a edição visual de uma página pessoal, com menus de navegação, painel de arquivos e ferramentas de formatação.

Minhas primeiras vítimas foram a Macromedia, com o Dreamweaver e o Fireworks, e a Corel, com o CorelDRAW (ouça o funk do Corel). Depois veio a Adobe, comprou a Macromedia e, anos mais tarde, matou o ⚰️ Fireworks. Nunca perdoei!

Também peguei tanto vírus instalando programa crackeado que acabei aprendendo a formatar o Windows na marra. E pensar que a gente desativava o antivírus porque um tutorial de instalação mandava. Que maravilha de educação digital!

Com música, a situação era ainda pior. Nunca fui muito de gravar CDs e DVDs no Nero, mas baixava música feito um condenado pelo Soulseek. Aquilo era um paraíso!

Captura de tela de uma versão antiga do Soulseek no Windows, com resultados de busca por arquivos MP3, nomes de usuários, tamanhos dos arquivos e salas de bate-papo.

Discografias inteiras, raridades, gravações ao vivo e um monte de artista que eu provavelmente nunca teria conhecido de outra forma. Gostava tanto que, no meu primeiro estágio, tive a brilhante ideia de instalar o Soulseek no computador do trabalho.

Um belo dia encontrei 56 discos do David Bowie e pensei: por que não baixar tudo? Pois bem, a empresa estava participando de um pregão de licitação que dependia da internet, e lá estava eu consumindo a conexão com minha pequena coleção de Bowie. A comida de rabo veio do menino de redes, com toda razão, mas também, gente, eram 56 discos do Bowie! Como deixar passar?

Lembro também de descobrir Date with the Night, do Yeah Yeah Yeahs, e de como o Orkut (foi lá que conheci uma das minhas bandas preferidas, Arrah and The Ferns) era maravilhoso para encontrar praticamente qualquer coisa. As comunidades eram uma festa de links do 4shared, torrents, discografias e filmes.

Foi nessa época que baixei até Amor Estranho Amor, aquele filme polêmico com a Xuxa. E querem saber? Nunca assisti! Está aí uma coisa curiosa daquela internet: às vezes a graça estava mais na busca do que em ouvir ou assistir ao que encontrava. A gente acumulava tanta coisa que parecia estar se preparando para sobreviver ao fim do mundo. E provavelmente boa parte daquilo nunca saiu do HD.

Com o tempo, fui trabalhando, ganhando meu dinheiro e deixando algumas dessas aventuras para trás, mas minha carreira de pirata ainda rendeu uma notificação por ter baixado Ava. Meu Deus, que filme ruim! De todos os filmes que poderiam me render uma cobrança, tinha que ser justamente aquele. Não encontrei mais a carta, mas era algo parecido com os casos relatados pelo Diário do Nordeste e discutidos pelo Partido Pirata, sobre notificações enviadas a usuários de torrent. Eu, que tinha passado anos baixando de tudo, finalmente recebi uma cobrança formal. E por Ava. Sério, até hoje não me conformo.

Na vida profissional, acabei fazendo as pazes com as licenças de software. Assinei a Adobe por uns 12 ou 14 anos, até cancelar recentemente. Obrigado, Affinity! Agora estou de olho até em umas iniciativas de engenharia reversa, embora ainda esteja pensando se vale a pena me meter nisso. É engraçado lembrar que passei boa parte da adolescência querendo ter dinheiro para comprar os programas e, depois de tantos anos usando ferramentas pagas, voltei a procurar alternativas gratuitas e de código aberto. Pelo menos hoje tenho um pouco mais de juízo para não sair executando qualquer coisa que encontro pela internet. Espero.

Com filmes e séries, a história é um pouco diferente. Hoje tenho acesso a vários serviços de streaming e, mesmo assim, continuo procurando conteúdo fora deles. Um filme está numa plataforma, a série que quero assistir está em outra, algumas temporadas somem e tem coisa que simplesmente não chega ao Brasil.

Tenho usado bastante o Telegram para acompanhar franquias de RuPaul’s Drag Race e encontrar filmes distribuídos pela Shudder. Lembram quando o streaming apareceu prometendo acabar com aquela trabalheira de baixar filmes? Pois é. A facilidade continua existindo, mas está cada vez mais condicionada a onde você mora, ao que cada serviço resolveu disponibilizar e ao quanto está disposto a gastar.

O que mais me incomoda é a sensação de que nada daquilo é realmente meu. Antes, o que eu baixava ficava guardado no computador até eu resolver apagar ou perder o HD, o que também acontecia com uma frequência preocupante. Hoje basta uma plataforma perder os direitos de distribuição para um filme ou série desaparecer. Claro que tem toda a discussão sobre direitos autorais e remuneração de quem produz cultura, e não acho que isso deva ser ignorado, mas também não dá para fingir que está tudo maravilhoso quando o acesso fica mais caro e a experiência continua cheia de limitações.

Ultimamente tenho pensado em voltar para o Linux, usar mais software livre e explorar melhor o Stremio, que reúne diferentes fontes de reprodução numa mesma interface. Gosto da ideia de ter mais controle sobre as ferramentas que uso, mas tem um pequeno problema: cadê a paciência? Quando era adolescente, passar uma tarde inteira procurando programas, instalando coisas e tentando fazer alguma coisa funcionar era praticamente um passatempo. Hoje só de imaginar o trabalho de configurar tudo já fico cansado, o capitalismo venceu pela preguiça, aparentemente.

E sabem de onde saiu esse texto todo? Eu estava lendo, lá no Igor, sobre Avatar: Seven Havens e resolvi procurar o título no Stremio. Minha ideia era escrever um tutorial de instalação, com complementos, legendas e essas coisas. Só que comecei a lembrar da mesa cinza que carreguei no ônibus, dos programas da Macromedia e dos 56 discos do Bowie que quase acabaram com a internet do meu estágio. Quando percebi, já estava aqui contando minha trajetória antissistema. Cê jura! O revolucionário que carregava uma mesa desmontada no ônibus agora tem preguiça de configurar o próprio computador.

Talvez o tutorial ainda saia. O tutorial não vai sair, procure no YouTube.
Continuo tentando descobrir se quero mesmo voltar à pirataria, se estou com saudade da internet mais complexas, porém mais divertida.

#revolucionário

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