Quando um desafio de blogagem vira uma campanha de RPG
Eu conheço o termo BEDA há algum tempo, a proposta é “simples”:
Blog Every Day in August, publicar alguma coisa no blog todos os dias durante agosto. São 31 dias, 31 oportunidades de escrever e também 31 oportunidades de abrir o editor e pensar: “por que eu fui inventar de participar disso?”.
O que me chamou atenção no BEDA organizado pelo EntreBlogs foi o que fizeram em volta dessa regra. Bárbara Moretti, Igor Medeiroz e as outras pessoas envolvidas na organização criaram Guardiões da Blogosfera, uma campanha de fantasia medieval inspirada em RPG, com storytelling, classes, missões, progressão, conquistas e vilões.
Não quero fazer uma análise acadêmica de gamificação. Quero olhar para o projeto como alguém que trabalha com design, gosta de blogs e também tentou participar da brincadeira. E tem bastante coisa para observar: foram 54 participantes listados e 956 pergaminhos registrados, quase mil publicações durante a campanha.
Quando agosto vira uma aventura
O EntreBlogs não colocou apenas alguns elementos medievais sobre o BEDA e chamou aquilo de gamificação. Existe um pequeno universo em volta da atividade. A campanha acontece no Reino de Sgolbertne, onde a magia da escrita está desaparecendo e uma antiga tradição de 31 dias pode formar novos Guardiões da Blogosfera.
A referência aos RPGs aparece em praticamente tudo. Existem classes como Cronista, Explorador, Artífice, Oráculo, Bardo e Arquivista. Posts viram pergaminhos, registrar uma publicação pode virar um ataque, sugestões aparecem em um Grimório de Feitiços e as semanas trazem missões e vilões.
Gosto de como o storytelling conecta coisas que poderiam ser funcionalidades soltas, mas existe um risco: quanto mais vocabulário próprio o sistema cria, mais coisas alguém precisa aprender. Jornada, classe, pergaminho, ataque, conquista, missão, grimório… a ambientação também pode virar carga cognitiva. Por isso, achei acertado existir um Manual do Aventureiro que reduz tudo a um fluxo mais simples: escolha como participar, publique, registre e acompanhe sua evolução.
Gamificação que aceita o fracasso
Uma das decisões que mais gostei foi não transformar 31 publicações numa fronteira entre quem participou e quem fracassou. Existem três jornadas: o Herói tenta publicar todos os dias, o Patrulheiro segue uma frequência semanal e o Andarilho participa quando quiser. Publicar diariamente exige tempo, assunto e disposição, então faz sentido manter o desafio sem exigir o mesmo compromisso de todo mundo.
Também achei interessante a gamificação ir além de níveis, medalhas e pontuação. As missões semanais propõem recuperar um rascunho, escrever em 15 minutos, produzir algo com outra pessoa ou revisitar publicações antigas. O Grimório de Feitiços funciona como banco de ideias para aquele momento inevitável em que você não sabe mais sobre o que escrever.
Algumas missões ainda levam o participante para outros blogs. Isso me parece especialmente coerente com uma proposta de blogagem coletiva: a progressão individual existe, mas também há incentivos para conhecer e interagir com outras pessoas.
Nem tudo funcionou tão bem para mim
A estrutura da campanha me interessou. A experiência no site, nem sempre. E aqui estou falando da minha experiência de uso, não de uma auditoria formal.
O cursor convencional é substituído em alguns momentos por um efeito de brilho. Entendo a escolha estética, mas não gosto de modificar um elemento tão básico de interação. Alguns textos também aparecem progressivamente e achei isso cansativo para conteúdos longos. Cheguei a esperar tudo carregar, salvar o conteúdo e ler depois.
Também me perdi entre as páginas e senti falta de maior padronização e de uma navegação global. Nas conquistas, o significado dos símbolos depende de hover, sem uma legenda geral, o que dificulta a descoberta e cria problemas em telas sensíveis ao toque, teclado e tecnologias assistivas.
A listagem dos quase mil pergaminhos também demorava bastante para aparecer na minha experiência. Não medi a aplicação para chamar isso de problema técnico de performance, mas a percepção de lentidão existiu, e isso já interfere no acompanhamento das publicações.
E eu nessa história toda?
Também participei, embora chamar minha tentativa de “cumprir o BEDA” seja uma enorme generosidade comigo mesmo. Resgatei Mozart Werther, personagem dos meus RPGs antigos, transformei-o em um clérigo e fui para a aventura.
Minha gloriosa campanha terminou como Aprendiz de Pergaminhos, com 6/31 publicações. Ainda consegui as medalhas Primeira Faísca ✨, Primeira Centelha 🕯️ e Escriba Incansável 🔥.
Trabalho com design e consigo analisar progressão, feedback, *storytelling* e motivação, mas saber como essas coisas funcionam não abriu magicamente espaço na minha rotina para escrever durante 31 dias. Ainda assim, 6/31 são seis textos que talvez eu não tivesse escrito se não tivesse entrado na brincadeira.
"Mozart Werther" pode não ter salvado a Blogosfera, mas também não voltou da aventura de mãos vazias.
O que ficou para mim
O EntreBlogs pegou uma atividade simples, pessoas publicando em seus próprios blogs durante agosto, e construiu em volta dela storytelling, RPG, progressão, desafios e comunidade. Quase mil publicações foram registradas nesse processo.
Isso não prova que “a gamificação funcionou”. Para afirmar isso seria preciso investigar abandono, comparar edições e conversar com os participantes. Mas, como experiência de design, achei interessante ver um sistema tentando oferecer contexto para publicar, ideias para quando falta assunto e reconhecimento para diferentes formas de participação.
Bem mais interessante do que colocar uma barra de progresso de 0 a 31 e chamar aquilo de gamificação.
Mesmo eu tendo parado no 6. 😬
Ficha do meu personagem

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