Eu sempre ouço até o fim
“Codinome Beija-Flor” começa e meu corpo reage antes que eu consiga prestar atenção na letra. Sinto um nó no peito, a garganta seca e os olhos lacrimejam. É uma tristeza que chega de verdade, embora eu não saiba dizer de onde vem. Já ouvi a música muitas vezes. A reação se repete em todas elas.
Eu poderia passar para a próxima faixa. Nunca passo. Escuto até a voz de Cazuza terminar e, pouco depois, sigo o dia. O estranho é essa certeza de que a música vai me abalar e a vontade de ficar nela mesmo assim.
Durante muito tempo, ouvi sobretudo indie rock gringo. Ainda ouço bastante, mas “Brasileirinho”, na voz de Maria Bethânia, abriu uma porta que eu não fechei mais. Passei a ouvir música brasileira sem me preocupar muito com gênero ou época. Fui de Gal e Caetano a Liniker e Cícero, encontrando canções que ficaram comigo por motivos diferentes. Algumas eu sei explicar. “Codinome Beija-Flor” resiste às minhas tentativas.
A música saiu em 1985, no primeiro disco solo de Cazuza, depois de sua passagem pelo Barão Vermelho. Ele a escreveu com Ezequiel Neves e Reinaldo Arias. Quando fui procurar sua história, encontrei o relato de que Cazuza e Ezequiel trabalharam na letra durante uma internação. Encontrei também especulações sobre quem seria o beija-flor. Ezequiel, perguntado diretamente sobre isso, disse que a imagem não se referia a uma pessoa específica.
Essa resposta me fez voltar ao título. Um codinome existe para que alguém possa ser chamado sem ser identificado por todo mundo. É uma palavra que protege e aproxima. Quem está de fora pode ouvi-la, mas não conhece a pessoa inteira que existe por trás dela. Talvez por isso a canção pareça tão íntima mesmo sem nos entregar uma história completa.
Logo no começo, a voz questiona a necessidade de fingir que perdoou. É um jeito desconfortável de iniciar uma canção de amor. Parece que houve um fim, ou pelo menos uma ruptura, e agora duas pessoas precisam descobrir como se comportar uma diante da outra. Há a possibilidade de ficarem amigas, de conversarem com educação, de encontrarem palavras aceitáveis para o que aconteceu. A pergunta é se alguma dessas atitudes corresponde ao que elas sentem.
O que me prende é que a música não deixa a mágoa organizar tudo. Quem canta se irrita com a encenação, mas continua atento à outra pessoa. Ainda existe desejo, memória do corpo, uma maneira particular de chamá-la. Mesmo quando tenta estabelecer distância, a voz se aproxima. Ouço essa oscilação o tempo todo, como se cada frase precisasse atravessar o que ainda resta da relação.
Talvez eu chore porque reconheço algo nessa dificuldade de dar uma forma clara a um sentimento, mas não lembro de um rompimento específico quando a música toca. Não há uma pessoa cujo rosto apareça imediatamente na minha cabeça. Dizer que ela fala de saudade seria chegar perto, só que ainda faltaria explicar por que a tristeza vem tão rápido, antes de eu pensar em qualquer coisa.
Tenho uma reação parecida com “Todo Homem”. É outra música que me pega por um caminho que não sei reconstruir direito. Isso me faz desconfiar das explicações muito fechadas sobre o que uma canção significa para quem a ouve. Posso pesquisar a composição, ler a letra com cuidado e perceber detalhes que antes tinham passado por mim. Nada disso determina o que vou sentir quando a voz começar de novo.
Recentemente, ouvi “Codinome Beija-Flor” como trilha de uma publicação com pinturas. Fiquei olhando as imagens e só li as frases sobre elas no final. A música já tinha feito o que sempre faz comigo. Foi esse reencontro que me deu vontade de escrever, talvez para passar mais tempo com uma pergunta que costuma durar apenas alguns minutos.
Ainda não tenho uma resposta.
Gosto de reparar no modo como a canção guarda alguém sem dizer quem é. Entendo a recusa de fingir que está tudo bem. Presto atenção na ternura que sobrevive à mágoa. E, quando os primeiros acordes chegam outra vez, tudo isso continua menor que o nó na garganta.
Então eu ouço até o fim.