R$ 1 de pão, 4 litros de refrigerante e uma tarde de RPG

R$ 1 de pão, 4 litros de refrigerante e uma tarde de RPG

Eu joguei RPG durante quase toda a minha adolescência.

Tinha um grupo de amigos e começamos com AD&D, foi o Conjunto First Quest - Advanced Dungeons & Dragons RPG, a aventura que vinha com mapa, personagens prontos e até um CD com narrações. Era um clima muito bacana e foi a porta de entrada para todo o resto.

Depois disso começamos a comprar outros RPGs. “Comprar”, aliás, precisa de uma explicação: muita coisa que a gente jogava era na base da cotinha e da xerox dos livros. PDFzinho nenhum, viu? Era livro, dinheiro contado, xerox e papel para todo lado.

Um deles foi GURPS, que eu lembro como um sistema supercomplexo. Jogamos uma campanha pós-apocalíptica e era divertido demais. Naquela época, gibi era praticamente a leitura diária do grupo, então nossas referências inevitavelmente iam parar nas aventuras. Era rajada laser, fogo, explosão e tudo o que a imaginação adolescente permitisse, não faço ideia de como está GURPS hoje, mas lembro com carinho dessa época.

Também teve Vampiro: A Máscara.

Jogamos uma campanha ambientada em Recife. Lembro que o primeiro vampiro da cidade era um “padre” chamado Ronan, era uma doideira. Na época a gente estava naquela fase meio “provoque society”: quanto mais junkie, melhor.

Tentamos jogar Mago também, mas a complexidade do cenário não empolgou muito o grupo e acabou ficando pelo caminho, escanteado. Em uma das sessões de Vampiro, inclusive, a gente se fantasiou! 🧛🏻🧛🏻‍♂️🧛🏻‍♀️🦇HAHAHAHAHAHA. Mainha entrou em casa, deu de cara com aquele bando de adolescentes vestidos sabe-se lá como, se espantou e depois riu horrores da gente.

Aliás, Mainha patrocinava muitas das nossas campanhas de RPG. Talvez fosse uma estratégia para manter o filho dela sob controle. A gente ocupava a mesa de seis lugares lá de casa. Ela comprava R$ 1 de pão francês, que eu acho que dava uns 20 pães na época, e quatro litros de refrigerante. Era a tarde inteira e o começo da noite ocupando aquela mesa.

O relacionamento mais longo provavelmente foi com D&D. Acho que jogávamos a terceira edição, e jogávamos muito, muito mesmo. A ponto de mandarmos uma carta para a revista Dragão Brasil procurando outras pessoas para jogar com a gente - só teve um pequeno problema, e só entendemos muito depois o que estava acontecendo. A síndica quem confirmou depois. Muita gente estava procurando um rapaz que tinha mandando uma carta para uma revista, mas ninguem com aquele nome morava lá. O responsável de colocar a carta nos Correiros, colocou o meu endereço na carta, mas colocou o nome dele 😑

Também jogamos bastante Tormenta e 3D&T. E tinha Arkanun, que na minha lembrança era algo meio próximo de Vampiro, só que muito mais abrangente.

Tormenta eu sei que existe até hoje. Tenho vontade de comprar de novo, o novo de comemoração de 20 anos. Nem necessariamente para jogarm só para ter. Talvez porque, olhando agora, percebo que os livros também faziam parte da experiência.

RPG naquela época tinha uma materialidade que hoje me chama atenção. Livro passando de mão em mão, xerox, ficha apagada e preenchida novamente, dados espalhados pela mesa, revista, mapa, lápis, pão francês e refrigerante (os dois últimos não em todas as casas e nem em todas as seções 😎).

Era um passatempo, claro., mas ocupou uma parte enorme da minha adolescência. Hoje eu tenho vontade de mestrar novamente uma campanha de D&D e tem uma coisa engraçada nisso: o universo já existe, eu escrevi e pensei sendo adulto já. Escrevi o cenário inteiro, criei e desenvolvi o mundo, lugares, histórias e tudo mais.

Falta o grupo e provavelmente falte um pouco da coragem de procurar gente para jogar e em algum momento eu ainda faço alguma coisa com esse universo, quem sabe eu não tenha coragem para compartilhar um pouco dele por aqui.

Por enquanto, fica registrado que durante alguns anos da minha vida uma mesa de seis lugares, algumas xerox, R$ 1 de pão e quatro litros de refrigerante eram praticamente tudo o que a gente precisava para passar uma tarde inteira em outro mundo.

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4 comentários

Maria Rita

Caramba, Vampiro, eu nem lembrava disso. Minha mãe me deixava viajar pra casa de um amigo de 15 em 15 dias depois que ele saiu de São Paulo pra gente poder seguir a campanha. Que saudade.

dalbo1201

Nossa, que saudades enormes de uma seção de RPG. Joguei muito tambem na juventude e sinto falta também, queria encontrar uma turma pra jogar. 🥲 Sabe um que eu joguei muito e poucos dizem conhecer? Tagmar. Joguei muito First Quest e tambem simulamos muito com Aventuras Fantásticas, onde um amigo era "mestre" e eu jogava. Cara, que saudades... quero um mestre. 😂

Taís

Eu viajei no tempo junto com você lendo esse post, fiquei imaginando vocês nessa mesa, com os pães e os 4 litros de regrigerante hahaha como a gente era feliz no simples, né? Eu nunca joguei nenhum desses, fiquei pensando se eu iria gostar também haha https://nyrtais.blogspot.com/

Aline

Eu nunca joguei RPG, mas consegui imaginar tudo o que você contou nesse post. Que lembranças incríveis você tem desses muitos mundos visitados. Um abraço

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